Freitag, September 17, 2004

Metade

E que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe seja linda, mesmo que triste.
Que a mulher que amo
Seja para sempre amada, mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida
E a outra metade é saudade.


Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece
Nem repetidas com fervor, apenas respeitadas.
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimento.


Porque metade de mim é o que ouço,
Mas a outra metade é o que calo.


Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço.


Que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que penso,
e a outra metade é um vulcão.


Que o medo da solidão se afaste!
Que conviva comigo mesmo
E se transforme ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim é a lembrança do que fui;
e a outra metade não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.

Porque metade de mim é abrigo,
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,
Mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar,
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a platéia,
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada,
Porque metade de mim é amor

e a outra metade ...

... também.

(Osvaldo Montenegro)

(Palavras para quê ...

Descrevem-me na perfeição.)





Kommentare:

AlmaAzul hat gesagt…

Sem dúvida um dos mais belos poemas que conheço... com a voz que se cola a ele.

***

Anonym hat gesagt…

O silencio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo de monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito. Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante este cair esfiado de água sombriamente luminosa que se destaca das fachadas sujas e, não sei o que penso nem o que sou.
Toda a amargura retardada da minha vida despe, aos meus olhos sem sensação, o traje de alegria natural de que usa nos acasos prolongados de todos os dias. Verifico que, tantas vezes alegre, tantas vezes contente, estou sempre triste. E o que em mim verifica isto está por detrás de mim, como que se debruça sobre o meu encostado à janela, e, por sobre os meus ombros, ou até a minha cabeça, fita, com olhos mais íntimos que os meus, a chuva lenta, um pouco ondulada já, que filigrana de movimento ar pardo e mau.

In "Desassossego" Heterónimo Bernardo Soares

(perco-me na sua escrita... mas em tom melancólico traz-me á realidade... um beijo * )

souuma hat gesagt…

De facto, para quê palavras quando se diz tudo? Para quê palavras quando se cala tudo?...

Anonym hat gesagt…

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